sexta-feira, 13 de maio de 2016

Resenha: Livro “A guerra não declarada na visão de um favelado”

A guerra não declarada na visão de um favelado” tem nada a ver com o Eduardo e isso foi um pequeno choque. Claro, quando um rapper escreve um livro em que se coloca como personagem principal, você espera que o RAP seja o principal tópico.

Entretanto, esqueci de avisar às minhas expectativas que o Eduardo é muito mais que um rapper; Eduardo sempre usou o RAP como um meio para levar sua mensagem mais longe. O livro é exatamente isso! Eduardo utiliza o respeito conseguido no RAP para levar sua mensagem através do livro.
Pode não haver um dado oficial, uma pesquisa sobre isso, mas garanto pra vocês que a maioria dos que compraram a publicação são fãs do Facção Central.
O rapper, embora não fale sobre o gênero musical diretamente, acaba transformando o livro em uma grande compilação de suas letras ao retratar diversos dos problemas sociais das periferias já citados em seus trabalhos musicais. Eduardo fala com propriedade sobre uma gama enorme de problemáticas periféricas, como a educação, a saúde, o lazer, a violência, as drogas, a prostituição, a religião, e tantos outros.
Se ele não tem os diplomas que muitos dos especialistas dos dias de hoje possuem,como ele ressalta muitas vezes no livro, o fato de ele estar nas ruas, nas periferias, e conhecê-las como poucos, o dá embasamento suficiente para debater tais questões.
O que me chamou a atenção é que em muitos casos, mesmo com toda essa propriedade, ele reproduz e analisa diversos dados “deles”, do próprio sistema. Dados estes que ele sabe são manipulados, mas é como se dissesse: “ok, é nisso que vocês querem acreditar? Então, vou provar que, mesmo assim, a coisa tá horrível”.
O ponto mais interessante do livro é a questão direta da tal guerra que estampa a capa destacada no título. O número de mortes nas periferias brasileiras é assombroso e muito maior que de tantos outros locais em guerras oficiais no mundo; a única diferença é que aqui as coisas foram programadas para acontecerem de uma maneira que “ninguém notasse”.
Pior, as autoridades fizeram tão bem o seu trabalho que ninguém mais sabe o que é bom e o que é ruim. Aqui, o cara que picha uma placa durante um protesto é muito mais criticado do que aquele que mata um jovem “suspeito”! E isso já não é mais nem uma questão de “burguesia x periferia” porque, em alguns casos, nem a própria periferia consegue escapar desse pensamento e acaba se atacando, do mesmo jeito que rappers acabam preferindo atacar outros rappers do que o real problema, como já vimos e revimos.
Por isso, este livro é tão importante. Por isso, o próprio Eduardo escrever este livro é tão importante. Eduardo não conta nenhuma grande novidade; tudo que ele escreveu é amplamente sabido. Entretanto, o registro é que faz a diferença. Melhor, a forma como é registrado.
Primeiro que, se boa parte das informações já estavam em seus RAPs, a facilidade de assimilar a linguagem direta do livro e a desconexão das informações com a música são fundamentais. Muitas pessoas não ouvem RAP porque eles acreditam que música é para divertir, dançar, etc., o que não se enquadra nos sons do Facção Central. Entretanto, ler um livro com tais informações já se torna muito mais fácil.
Segundo, não é um filósofo que do alto da sua cobertura enxergou tais problemas e escreveu, mas sim um filho da quebrada; um pé-no-barro como todos os outros ali. Assim, a informação é passada de maneira muito mais assimilável pra aqueles que devem ler esse livro.
Porque o livro não foi escrito pras autoridades ou pros burgueses lerem e se solidarizarem com a situação. Não, Eduardo não gastaria papel e tempo com tamanha impossibilidade. O livro é escrito de um favelado pra favela e regiões adjacentes. O livro é uma tentativa de tornar ou manter sã a mente de vários que o sistema corrompeu ou tenta corromper.
É como se o Eduardo estivesse na linha de frente e alertasse seus companheiros mais afastados para os perigos à frente. Não novos perigos, pois estes são conhecidos há séculos, mas ataques cada vez mais poderosos. Uma guerra que de tão disfarçada torna-se cada vez mais perigosa; uma guerra que só oferece uma maneira de se proteger: blindar… a mente.

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